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Peak shaving: como cortar o pico de demanda e parar de pagar multa de ultrapassagem
Neste artigo
Em poucas palavras
Peak shaving é o corte dos picos de demanda de energia com uma bateria. Quando a operação puxa mais potência do que o normal, a bateria descarrega e a distribuidora "enxerga" um consumo menor. Isso evita a cobrança de ultrapassagem, permite contratar uma demanda mais baixa e pode reduzir o custo no horário de ponta.
Terça-feira, 10h15, numa metalúrgica do Grupo A no Sul de Minas. O forno de indução entra em ciclo no mesmo minuto em que o compressor principal parte e a ponte rolante levanta uma carga pesada. A operação dura pouco mais de dez minutos e ninguém nota nada de estranho. Três semanas depois, a fatura chega com uma linha que o dono conhece bem e detesta: ultrapassagem de demanda.
Dez minutos custaram o mês. E vão custar de novo, porque a mesma combinação de máquinas se repete.
É para esse problema que existe o peak shaving. Antes de falar da bateria, vale entender por que um pico tão curto pesa tanto.
Como a demanda é cobrada no Grupo A
Empresas atendidas em tensão igual ou maior que 2,3 kV fazem parte do Grupo A. Além da energia consumida, elas pagam pela demanda: a potência que a distribuidora precisa manter disponível para elas.
Três regras da ANEEL (REN 1.000/2021) explicam por que o pico é caro:
- A demanda é medida em janelas de 15 minutos. A distribuidora registra a potência média de cada janela e guarda a maior do mês.
- Você paga o maior valor entre a demanda medida e a contratada. Contratou 500 kW e usou 450? Paga 500. Usou 520? Paga 520.
- Passou 5% do contratado, há cobrança de ultrapassagem. O excedente é cobrado com o dobro da tarifa de demanda de referência, sobre toda a diferença entre o medido e o contratado.
Ou seja, um único intervalo de 15 minutos define o custo de demanda do mês inteiro.
Um exemplo de fatura, com números ilustrativos
Os valores abaixo são fictícios e servem só para mostrar a mecânica. A tarifa real depende da distribuidora, do subgrupo e da modalidade.
Suponha uma indústria com demanda contratada de 500 kW e tarifa de demanda de R$ 40 por kW.
| Situação | Demanda medida | Custo de demanda no mês |
|---|---|---|
| Mês sem pico | 480 kW | 500 × R$ 40 = R$ 20.000 (paga o contratado) |
| Mês com pico de 10 minutos | 540 kW | 540 × R$ 40 = R$ 21.600, mais ultrapassagem de (540 − 500) × 2 × R$ 40 = R$ 3.200. Total: R$ 24.800 |
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Um pico de dez minutos acrescentou R$ 4.800 à fatura. Se ele se repete todo mês, são perto de R$ 58 mil por ano, só em demanda. E a reação instintiva, aumentar a demanda contratada para "ficar seguro", faz a empresa pagar mais em todos os meses em que o pico não acontece.
O que o peak shaving faz
A bateria fica ligada à instalação da empresa, depois do medidor. Um sistema de gestão de energia, o EMS, acompanha a demanda em tempo real. Quando a potência se aproxima de um limite definido no projeto, a bateria começa a descarregar e cobre a diferença. A distribuidora mede a demanda "aparada".
Nos períodos de baixa, a bateria recarrega com calma, sem criar um novo pico.
Pense numa represa que segura a enxurrada. A chuva forte continua caindo, mas o rio abaixo não transborda. A fábrica continua operando com o forno, o compressor e a ponte rolante ao mesmo tempo. Quem sente a diferença é a fatura.
Peak shaving, ponta e arbitragem: três usos diferentes
Esses termos aparecem juntos em propostas e costumam ser confundidos.
| Uso | O que a bateria faz | Onde aparece a economia |
|---|---|---|
| Peak shaving | Corta picos curtos de potência, a qualquer hora | Demanda faturada e ultrapassagem |
| Deslocamento da ponta | Cobre o consumo nas três horas de ponta definidas pela distribuidora | Na modalidade verde, a energia da ponta. Na azul, também a demanda da ponta |
| Arbitragem | Compra energia quando está barata e usa quando está cara | Relevante para quem está no mercado livre ou com preço variável |
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A mesma bateria pode fazer mais de uma coisa, e é aí que o investimento costuma fechar. Uma bateria que faz peak shaving de manhã, cobre a ponta à noite e ainda protege cargas críticas numa falta de energia tem três fontes de valor. Sobre este último ponto, veja quanto custa para sua empresa ficar sem energia.
O que peak shaving não é
- Não reduz o consumo total. A energia usada no pico foi guardada antes. Como toda bateria tem perdas no ciclo, o consumo total até sobe um pouco.
- Não resolve um consumo alto e constante. Se a fábrica opera o dia inteiro perto do limite, não há pico para cortar. Há um patamar, e a bateria precisaria ser enorme.
- Não substitui um contrato de demanda bem feito. Às vezes, o primeiro ganho vem de ajustar a demanda contratada ao perfil real.
Quando faz sentido avaliar
O peak shaving tende a fazer sentido quando a curva de carga mostra alguns destes sinais:
- Picos curtos e repetitivos, ligados a partidas de motores, fornos, compressores, prensas, câmaras frias em degelo ou recarga de frota elétrica.
- Ultrapassagens frequentes, ou uma demanda contratada bem acima da média só para absorver picos raros.
- Diferença grande entre a demanda máxima e a média, o que o setor chama de fator de carga baixo.
- Custo relevante no horário de ponta, somado ao pico, o que dá à bateria uma segunda função.
- Expansão travada pelo limite de demanda ou pela capacidade da entrada de energia.
A EPE, no caderno sobre baterias atrás do medidor do Plano Decenal 2035 (agosto de 2025), concluiu que baterias para gestão da ponta já podem ser viáveis para consumidores com alto fator de carga na ponta em algumas distribuidoras. E que elas se tornam competitivas com o gerador a diesel quando o custo do sistema fica abaixo de R$ 2.000 por kWh. Na mesma publicação, a referência de preço para um sistema comercial e industrial de 3 MWh, com dados da ABSAE de 2024, está perto desse patamar.
O tamanho do mercado também chama a atenção: a EPE estimou, em 2015, entre 7 e 9 GW de geradores a diesel usados por consumidores para fugir da ponta. Cada um deles é uma operação que já paga para não consumir da rede nesse horário, e que pode comparar o diesel com a bateria. Valores de referência de 2024 e 2025; o preço final depende do diagnóstico.
Antes da bateria, as saídas mais baratas
Um bom diagnóstico começa descartando o que resolve com menos dinheiro:
- Escalonar partidas. Se o pico vem de duas máquinas grandes ligando juntas, um intervalo de alguns minutos pode resolver.
- Partida suave em motores grandes. Inversores de frequência e soft-starters reduzem o pico de partida.
- Rever a demanda contratada. Às vezes ela está alta demais, às vezes baixa demais.
- Revisar a modalidade tarifária. Verde ou azul faz diferença, conforme o uso na ponta.
A bateria entra quando essas medidas não bastam, ou quando a operação não pode mudar a sua rotina.
Os dados que você precisa reunir
Para avaliar peak shaving com seriedade, separe:
- Memória de massa dos últimos 12 meses, com a curva de carga em intervalos de 15 minutos. A distribuidora fornece.
- 12 faturas, com demanda medida, contratada, ultrapassagens e consumo na ponta e fora dela.
- Contrato de demanda e modalidade tarifária atuais.
- Lista das cargas grandes e dos horários em que operam.
- Planos de expansão para os próximos anos.
Com a curva de 15 minutos, o dimensionamento fica claro: a altura do pico que você quer cortar define a potência da bateria, em kW. A duração do pico define a energia, em kWh. Um pico alto e curto pede muita potência e pouca energia. Uma ponta de três horas pede o contrário.
Como a G8ON conduz a análise
Na G8ON, peak shaving começa pela curva de carga, não pelo catálogo. Seguimos o nosso método: Diagnóstico, Estratégia, Engenharia e Implantação. No diagnóstico, cruzamos a memória de massa com a fatura e a rotina da fábrica para separar o que é pico, o que é patamar e o que se resolve sem bateria. Só então a estratégia define se a bateria entra, com qual tamanho e com quantas funções. A primeira análise, feita a partir da memória de massa, não tem custo para o cliente.
Conclusão
No Grupo A, o custo de demanda do mês é decidido pelo pior intervalo de 15 minutos. O peak shaving usa uma bateria para que esse intervalo deixe de existir aos olhos da distribuidora. Ele funciona muito bem para picos curtos e repetitivos e rende mais quando a mesma bateria também cobre a ponta e protege a operação. Para consumo alto e constante, a resposta costuma estar em outro lugar.
O primeiro passo é olhar a sua curva de carga com atenção.
Perguntas frequentes
O que é peak shaving?
É o uso de uma bateria, controlada por um sistema de gestão de energia, para cortar os picos de demanda de uma instalação. A bateria descarrega nos momentos de maior potência e reduz a demanda medida pela distribuidora.
Como funciona a multa de ultrapassagem de demanda?
Pela REN ANEEL 1.000/2021, quando a demanda medida passa 5% da contratada, a distribuidora cobra a diferença entre a medida e a contratada com o dobro da tarifa de demanda de referência, além da demanda normal. A medição é feita em intervalos de 15 minutos.
Peak shaving reduz o consumo de energia?
Não. Ele reduz o pico de potência, não o consumo total. Como toda bateria tem perdas no ciclo de carga e descarga, o consumo total pode subir um pouco. A economia vem da demanda e, quando a bateria também cobre a ponta, da energia mais cara.
Qual a diferença entre peak shaving e deslocamento de ponta?
O peak shaving corta picos curtos de potência a qualquer hora. O deslocamento de ponta cobre o consumo nas três horas de ponta definidas pela distribuidora, quando a energia e, na modalidade azul, a demanda são mais caras. A mesma bateria pode fazer os dois.
Quais dados preciso para avaliar peak shaving?
A memória de massa dos últimos 12 meses, com intervalos de 15 minutos, as faturas do período, o contrato de demanda, a modalidade tarifária e a lista das cargas grandes com seus horários de operação.
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Fontes e referências do artigo
- REN ANEEL nº 1.000/2021 (texto consolidado, LegisWeb, e fórmula do art. 301 conferida na imagem publicada no Diário Oficial da União):
- art. 2º, XIII: demanda medida integralizada em intervalos de 15 minutos;
- art. 2º, XXIII: grupo A = conexão em tensão igual ou maior que 2,3 kV;
- art. 2º, XXXVIII: horário de ponta = 3 horas diárias consecutivas definidas pela distribuidora, fora sábados, domingos e feriados nacionais;
- arts. 213 e 214: modalidades verde e azul;
- art. 294, II: demanda faturada = maior valor entre a medida e a contratada;
- art. 301: cobrança de ultrapassagem quando a demanda medida passa 5% da contratada, calculada como (demanda medida − demanda contratada) × 2 × tarifa de referência.
- EPE/MME, Caderno "MMGD & Baterias Atrás do Medidor", PDE 2035, 01/08/2025: baterias competitivas com o diesel na ponta abaixo de R$ 2.000/kWh; preço de referência de sistema C&I de 3 MWh perto de R$ 2.000/kWh (ABSAE 2024; R$ 1.920/kWh instalado na tabela); estimativa de 7 a 9 GW de geradores a diesel usados na ponta (EPE, 2015); viabilidade para consumidores com alto fator de carga na ponta em algumas distribuidoras; tendência de migração desses consumidores para o mercado livre.
Este texto segue um método: como escrevemos.
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