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Residencial / Mercado

Fio B em 2026: por que o solar sem bateria rende menos a cada ano

gustavo
Medidor de energia bidirecional com painéis solares ao fundo
Imagem conceitual. Não representa uma instalação da G8ON.
Neste artigo

Em poucas palavras

Fio B é a parte da tarifa que remunera a rede de distribuição. Pela Lei 14.300, quem pediu a conexão a partir de janeiro de 2023 paga, em 2026, 60% do Fio B sobre a energia que injeta na rede e usa depois. Sobe para 75% em 2027 e 90% em 2028. A energia consumida na hora não paga.

Um casal de Campinas instalou painéis solares em meados de 2023. No primeiro ano, a conta caiu quase ao mínimo. Em 2026, com o mesmo sistema e o mesmo sol, a economia ficou menor. Nada quebrou, o inversor mostra a mesma geração de sempre. O que mudou foi uma linha da tarifa que pouca gente conhecia até a Lei 14.300: o Fio B.

A cena se repete em milhares de casas e pequenos negócios do Sudeste. Entender o que está acontecendo ajuda a decidir melhor, tanto quem já tem solar quanto quem está orçando. E ajuda a separar o que é argumento de venda do que é conta de verdade.

O que é o Fio B

A tarifa de energia tem duas grandes partes. Uma paga a energia em si, a que foi gerada nas usinas. A outra paga o uso dos fios, a chamada TUSD (Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição).

Dentro da TUSD, há um pedaço que remunera a própria distribuidora pela rede que leva a energia até a sua porta. É o que o setor chama de Fio B. A Lei 14.300 o descreve como as componentes relativas à remuneração dos ativos da distribuição, à depreciação desses ativos e ao custo de operação e manutenção da rede.

Em português simples: é o "aluguel" da rede local, com os postes, os cabos, os transformadores e as equipes que cuidam de tudo isso.

Por que o solar passou a pagar Fio B

Quem tem solar ligado à rede usa a rede de um jeito particular. Durante o dia, a energia que sobra vai para a rua. À noite, a casa puxa energia da rua. No fim do mês, uma coisa compensa a outra.

É como se a rede fosse uma bateria virtual gratuita: você "deposita" energia ao meio-dia e "saca" às oito da noite. Até a Lei 14.300, esse depósito e esse saque eram trocados na proporção de um para um, sem pagar pelo uso dos fios nos dois sentidos.

A lei, sancionada em janeiro de 2022, criou uma transição: aos poucos, quem compensa energia passa a pagar uma parte do Fio B sobre o que foi depositado e sacado. A ideia é que o custo da rede não recaia só sobre quem não tem solar.

A escada do Fio B, ano a ano

O art. 27 da Lei 14.300 definiu os percentuais para quem entrou depois do prazo de transição.

Ano Percentual do Fio B sobre a energia compensada
2023 15%
2024 30%
2025 45%
2026 60%
2027 75%
2028 90%
A partir de 2029 Regra definitiva do art. 17, com valoração de custos e benefícios da geração distribuída

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A partir de 2029, a cobrança deixa de seguir a escada e passa a seguir uma regra definida pela ANEEL, com base em diretrizes do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). A lei prevê que, nessa regra, sejam cobradas as componentes não associadas ao custo da energia e abatidos os benefícios que a geração distribuída traz ao sistema. O resultado final ainda depende dessa valoração.

Quem paga e quem não paga

Nem todo mundo que tem solar está na escada. A lei separou dois grupos.

Quem mantém a regra antiga até 2045. Os sistemas que já existiam em janeiro de 2022 e os que tiveram a solicitação de acesso protocolada na distribuidora em até 12 meses da publicação da lei, ou seja, até o início de janeiro de 2023. Para esse grupo, a compensação segue como antes até 31 de dezembro de 2045.

Quem está na escada. Quem protocolou depois desse prazo. Para quem protocolou entre o 13º e o 18º mês depois da lei (até meados de 2023), a regra definitiva só começa em 2031, e não em 2029.

Um terceiro caso, menos comum, é o da minigeração acima de 500 kW em autoconsumo remoto ou geração compartilhada com um titular dominante. Para esses projetos, a lei prevê cobrança maior já na transição.

Uma ressalva: o direito à regra antiga pode ser perdido em algumas situações, como o aumento da potência instalada protocolado depois do prazo. Nesse caso, a regra nova vale para a parcela ampliada. Antes de ampliar um sistema antigo, vale checar esse ponto.

Onde o Fio B incide, e onde não incide

Esse é o ponto mais mal explicado do tema, e o mais importante para decidir.

A energia que seus painéis geram segue um de três caminhos:

  1. Consumida na hora. A geladeira, o computador e o ar-condicionado usam a energia no momento em que ela é gerada. Ela nem passa pelo medidor da distribuidora. Não paga Fio B. Vale 100%.
  2. Injetada e compensada depois. Sobra ao meio-dia, vai para a rua e volta à noite na forma de crédito. É aqui que incide o Fio B, no percentual do ano.
  3. Injetada e não usada. Vira crédito acumulado. Pela lei, créditos expiram em 60 meses.

Em outras palavras: o Fio B não "taxa o sol". Ele cobra pelo uso da rede como bateria virtual. Quanto mais energia você consome na hora em que gera, menos o Fio B pesa.

Um exemplo de conta, com números ilustrativos

Os números abaixo são fictícios, só para mostrar a mecânica. O valor real do Fio B depende da sua distribuidora (Enel SP, CPFL, EDP, Neoenergia Elektro, Cemig, Light e outras) e muda a cada reajuste.

Suponha uma casa que injeta 300 kWh por mês na rede e usa esse crédito à noite, numa distribuidora em que o Fio B vale R$ 0,30 por kWh.

Ano Percentual Custo mensal do Fio B sobre a energia compensada
2025 45% 300 × 0,30 × 45% = R$ 40,50
2026 60% 300 × 0,30 × 60% = R$ 54,00
2027 75% 300 × 0,30 × 75% = R$ 67,50
2028 90% 300 × 0,30 × 90% = R$ 81,00

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Em três anos, o custo dobra. Não é o fim da economia do solar, que continua relevante. Mas é uma perda crescente, e ela afeta mais quem injeta muito e consome pouco durante o dia: famílias que passam o dia fora, escritórios que fecham cedo, casas de fim de semana.

Então a bateria resolve?

Aqui está a parte que a maioria dos textos pula.

A bateria permite guardar o excedente do meio-dia e usá-lo à noite dentro de casa, sem passar pela rede. Com isso, a energia muda do caminho 2 para o caminho 1 e escapa do Fio B. A lógica está certa.

Mas a conta, sozinha, raramente fecha. A EPE, no caderno sobre baterias atrás do medidor do Plano Decenal 2035, publicado em agosto de 2025, chegou a duas conclusões que merecem ser ditas com clareza:

  • A Lei 14.300 impõe um desconto "pequeno e gradual" sobre a energia injetada. Usada apenas para aumentar o autoconsumo, a bateria alonga o prazo de retorno do investimento em vez de encurtá-lo.
  • Mesmo assim, o conjunto solar mais bateria "pode sensibilizar um nicho de consumidores", especialmente pelos benefícios complementares, como o aumento da resiliência elétrica. E a atratividade tende a crescer a partir de 2029, se a energia injetada passar a valer menos.

Para ter ordem de grandeza: a mesma publicação estima o preço final de baterias residenciais próximo de R$ 3.500 por kWh, com dados da Greener, e lembra que há incerteza relevante sobre esse valor. Evitar algumas dezenas de reais de Fio B por mês, sozinho, não paga esse investimento em prazo curto.

Por isso, a pergunta certa não é "a bateria compensa o Fio B?". É "a soma dos benefícios da bateria compensa o investimento?".

Quando a bateria passa a fazer sentido

A bateria costuma se justificar quando mais de um destes fatores aparece ao mesmo tempo:

  1. Você injeta muito. Boa parte da geração vai para a rede porque não há consumo durante o dia.
  2. Ficar sem energia tem custo. Home office, equipamento médico, freezer cheio, bomba d'água, portão, câmeras. Depois do apagão de dezembro de 2025 na Grande São Paulo, esse valor deixou de ser teórico para muita gente. Veja por que o solar desliga quando falta luz.
  3. A tarifa muda ao longo do dia. Na tarifa branca, a energia no horário de ponta é mais cara, e a bateria pode deslocar o consumo. É um tema do artigo 12 desta série.
  4. Você quer se proteger da regra de 2029. A EPE lista a proteção contra mudanças regulatórias que reduzam o benefício da compensação como um dos motivos para armazenar o excedente.

Se só o primeiro fator aparece, há alternativas mais baratas.

O jeito mais barato de fugir do Fio B

Antes de pensar em bateria, olhe para o seu consumo. Tudo o que você conseguir usar enquanto o sol brilha escapa do Fio B, sem investimento.

  • Programar máquina de lavar, lava-louças e bomba da piscina para o meio do dia.
  • Pré-resfriar a casa com o ar-condicionado no começo da tarde.
  • Carregar o carro elétrico durante o dia, quando possível.
  • Aquecer água com bomba de calor ou resistência em horário de sol.

Essas mudanças custam pouco e aumentam o autoconsumo. A bateria entra quando você já fez isso e ainda quer mais: continuidade no apagão, uso da energia à noite, proteção contra a regra futura.

Três perfis, três respostas

A mesma regra afeta casas muito diferentes de formas muito diferentes. Três perfis comuns no Sudeste ajudam a enxergar isso. São exemplos genéricos, não casos reais.

A casa com home office. Alguém trabalha em casa, o ar-condicionado e o computador ficam ligados durante o dia, a geladeira e a bomba da piscina também. Boa parte da geração é consumida na hora. O Fio B pesa pouco. Se houver interesse em bateria, o motivo principal tende a ser outro: não perder o dia de trabalho num apagão.

A família que passa o dia fora. Todos saem cedo e voltam à noite. Ao meio-dia, a casa consome quase nada e injeta quase tudo na rede. É o perfil mais exposto ao Fio B, porque quase toda a energia passa pela compensação. Antes de pensar em bateria, vale automatizar o que dá para rodar de dia. Se ainda sobrar muito excedente, a bateria começa a entrar na conversa, sobretudo se somada a backup e tarifa.

O pequeno comércio aberto de dia. Padaria, farmácia, escritório. O horário de funcionamento coincide com o sol, e o autoconsumo é naturalmente alto. O Fio B incide sobre pouca energia. Aqui, a bateria costuma fazer sentido quando há carga que não pode parar, como refrigeração, e não por causa da tarifa.

Repare que em nenhum dos três casos o Fio B, sozinho, decide a compra. Ele muda o peso de cada fator na conta.

O que fazer agora, em quatro passos

  1. Descubra em qual grupo você está. Veja a data em que o pedido de conexão foi protocolado na distribuidora. O integrador que instalou o sistema tem essa informação.
  2. Meça quanto você injeta. Compare a geração mostrada pelo inversor com a energia injetada que aparece na fatura. A diferença é o que você consome na hora.
  3. Descubra o valor do Fio B da sua distribuidora. Ele está na tarifa homologada pela ANEEL e muda a cada reajuste.
  4. Some os outros benefícios antes de decidir. Valor do backup, tarifa branca, planos de consumo futuro, como um carro elétrico.

Com esses dados, a decisão sobre bateria deixa de ser impressão e vira conta.

Para empresas: a regra é a mesma, a escala muda

Pequenos negócios com solar no telhado seguem a mesma escada. Em empresas do Grupo A, com minigeração, o raciocínio se soma a outros fatores: demanda contratada, tarifa horária, custo de interrupção. Nesses casos, a bateria costuma ter mais de uma função, como a redução do pico de demanda, explicada em peak shaving.

Conclusão

O Fio B não acaba com a vantagem da energia solar, mas muda a forma de aproveitá-la. Em 2026, 60% dele incide sobre a energia que você usa a rede para guardar, e esse percentual sobe até 2028. O que você consome na hora continua valendo integralmente.

Para quem injeta muito, o primeiro passo é consumir de dia. O segundo, quando continuidade e tarifa entram na conta, é avaliar armazenamento com números reais. A G8ON começa sempre pelo diagnóstico, antes de falar em equipamento.

Perguntas frequentes

O que é Fio B na conta de luz?

É a parte da tarifa de uso do sistema de distribuição (TUSD) que remunera a rede da distribuidora: remuneração e depreciação dos ativos e custo de operação e manutenção. Para quem tem solar na regra nova, ele incide sobre a energia injetada na rede e compensada depois.

Quanto é o Fio B em 2026?

Em 2026, quem está na regra de transição da Lei 14.300 paga 60% do Fio B sobre a energia compensada. O percentual sobe para 75% em 2027 e 90% em 2028. A partir de 2029, vale a regra definitiva, que ainda depende da valoração de custos e benefícios da geração distribuída.

Quem instalou solar antes de 2023 paga Fio B?

Não, na regra geral. Sistemas existentes em janeiro de 2022 e os que protocolaram a solicitação de acesso em até 12 meses da publicação da lei mantêm a compensação antiga até 31 de dezembro de 2045. Ampliações protocoladas depois do prazo seguem a regra nova na parte ampliada.

A energia que eu consumo na hora paga Fio B?

Não. O Fio B incide só sobre a energia injetada na rede e compensada depois. O que é consumido no momento da geração não passa pela compensação e vale integralmente.

Vale a pena colocar bateria só por causa do Fio B?

Raramente. O custo evitado de Fio B, sozinho, costuma ser pequeno perto do investimento, conclusão que a EPE também registra no Plano Decenal 2035. A bateria tende a se justificar quando soma benefícios, como backup no apagão, tarifa branca e proteção contra a regra de 2029.

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Quer saber quanto o Fio B pesa no seu sistema e se a bateria faz sentido? Vamos entender seu projeto

Fontes e referências do artigo
  1. Lei nº 14.300, de 6/1/2022, texto compilado no Planalto: art. 26 (regra antiga até 31/12/2045 para quem já tinha sistema ou protocolou em até 12 meses da publicação), art. 27 (percentuais de 15% em 2023 a 90% em 2028; regra do art. 17 a partir de 2029; exceção de 2031 para quem protocolou do 13º ao 18º mês; regra própria para minigeração acima de 500 kW remota ou compartilhada), art. 17 (regra definitiva após a transição) e art. 13 (créditos expiram em 60 meses).
  2. EPE/MME, Caderno "Micro e Minigeração Distribuída & Baterias Atrás do Medidor", PDE 2035, publicado em 01/08/2025: preço final estimado de baterias residenciais próximo de R$ 3.500/kWh (dados Greener); Lei 14.300 como "pequeno e gradual desconto"; baterias ampliam o payback quando usadas só para aumentar o autoconsumo; tendência de maior viabilidade a partir de 2029.

Este texto segue um método: como escrevemos.

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